Setor de turismo trabalha para manter o Pará em alta após a COP-30. Mas espera resultado com cautela

Por Luan Conceição (especial para o Estadão)
Marina Figueiredo fala sobre diversificação de destinos, COP30 e sustentabilidade

Na série ‘Com a Palavra, o Mercado’, a presidente da Braztoa aborda lugares consolidados e novos, além de desafios enfrentados pelas empresas de turismo. Crédito: Júlia Pereira/Estadão

Belém ganhou visibilidade mundial com a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), o que acabou apresentando o Pará para muitos brasileiros também. Antes do encontro, a cidade passou por obras, teve espaços, porto e aeroporto reformados e ganhou quatro grandes hotéis, sendo um de luxo e um premium. Mas como garantir que todo esse investimento seja aproveitado de forma sustentável e duradoura depois de 21 de novembro, quando o encontro se encerra? Uma das respostas pode estar no turismo.

“A COP é uma oportunidade, não um fim. Ela movimenta a economia e dá luz à Amazônia, mas vai acabar. Deve ser um meio para impulsionar o desenvolvimento turístico e regional”, afirma Cássio Garkalns, CEO da GKS, empresa de inteligência que há 27 anos cria projetos alinhados às métricas ESG.

Para receber a conferência do clima, Belém teve cartões-postais como os mercados de São Brás e Ver-o-Peso reformados. Serviços de alimentação, transporte e agências de turismo foram criados ou ampliados para conquistar e atender mais clientes. “O momento eleva o padrão de qualidade necessário e deve deixar um legado para que as melhorias continuem beneficiando Belém, a região, o Pará e o Brasil”, defende o CEO da GKS.

Mas ele faz uma ressalva: “O turismo precisa deixar de ser visto apenas como lazer e passar a ser entendido como atividade econômica. O poder público deve planejar a médio e longo prazo, mas os empresários também precisam se empoderar. Donos de pousadas, restaurantes, atrativos e guias devem se organizar, criar programas de capacitação e divulgação e assumir responsabilidades”.

Para Marina Figueiredo, presidente executiva da Associação Brasileira de Operadoras de Turismo (Braztoa), o Pará tem um grande potencial para se manter em alta depois da COP-30. “A gente confia e torce para que todo esse trabalho que foi feito, de renovação de equipamentos, melhorias, identificação de experiências e atrativos, fique para o turismo. É um resultado que a gente só vai ter no pós-COP. Vamos trabalhar junto com a Secretaria de Turismo do Pará e os outros parceiros que temos na região, para transformar isso em um produto turístico e trazer à prateleira dos operadores”, indica.

Pacotes para Belém

As empresas já vendem o destino, e o trabalho com o governo do Pará vem sendo feito. Em agosto deste ano, a Braztoa e a secretaria de Turismo promoveram um encontro com operadoras, para apresentar os atrativos naturais, culturais e gastronômicos do Estado. O 13º Prêmio Braztoa de Sustentabilidade será realizado em Belém, no dia 8 de dezembro, pouco após a COP. Além da cerimônia, também serão feitas visitas de vivência local e um ciclo de palestras.

“Usamos o prêmio como catalisador para que as discussões continuem no pós-COP. Foi muito legal porque mais da metade das iniciativas finalistas tem impacto na Amazônia. O Pará liderou junto com São Paulo em inscrições e indicações, e trouxemos iniciativas do Norte, Amazônia e outras regiões”, conta Marina.

Em agosto, Belém apareceu no Anuário Braztoa 2025, com dados de vendas das operadoras no ano passado, como o principal destino emergente. Essa denominação é dada aos lugares que não estão entre os mais vendidos, mas que tiveram um crescimento acelerado na procura dos viajantes. No entanto, um mês depois, no boletim da Braztoa sobre o primeiro semestre deste ano, 41,9% das operadoras expressaram receio de que possíveis falhas de organização durante o evento pudessem prejudicar a imagem do destino no futuro, após os problemas de hospedagem enfrentados pela capital paraense.

Em entrevista ao Estadão para a série Com a Palavra o Mercado, no fim de setembro, Marina contou que as operadoras vêm incentivando as viagens fora da época mais movimentada e os próprios turistas têm procurado mais isso, tendência observada mundialmente. “A experiência não é a mesma num destino superlotado. Tem a questão de custos mais elevados. E, ao mesmo tempo, hoje há uma preocupação ambiental e social, de tentar evitar o over turismo”, completou na ocasião. Seguindo o mesmo raciocínio, ela convidou todos a visitarem Belém depois da COP-30; confira no vídeo no alto desta reportagem.

De navio ou avião, terminais renovados

Um exemplo de grande obra realizada na região para a COP-30 é o Terminal Portuário de Outeiro, ampliado para receber dois navios transatlânticos para servirem de hospedagem flutuante de parte das comitivas internacionais. Inaugurado em 1° de novembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi uma solução pensada pelo governo federal para a crise de hotéis em Belém, tanto por escassez quanto altos preços de acomodação.

Para Marina e Garkalns, a nova história do terminal não pode se encerrar com a Conferência, e o porto tem potencial para abrir inserir Belém no roteiro dos cruzeiros internacionais. De acordo com Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil, regional da associação global de companhias de cruzeiros, isso já está sendo considerado por empresas do setor. Ele falou sobre esse aspecto em outra entrevista da série Com a Palavra, o Mercado.

‘Com a Palavra, o Mercado’: Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil, fala sobre a temporada 2025/2026, desafios para o setor crescer no País e aumento de luxo e. Crédito: Isabel Lima/Estadão

O Porto de Outeiro é uma das 22 obras realizadas na capital paraense para acolher o evento e os 40 mil visitantes previstos pelo governo federal. Outra, também inaugurada por Lula no mesmo 1º de novembro, foi a reforma do Aeroporto Internacional Júlio Cezar Ribeiro (Val-de-Cans). Para reforçar a segurança para a COP-30, o terminal aéreo recebeu seis Portões de Controle de Fronteira Automatizado (ABC Gates), sistema que usa tecnologia de biometria facial. De acordo com a Sita, especialista em tecnologia para o setor aéreo, foram três na área de embarque e três no desembarque, com a intenção de agilizar a passagem de viajantes pelo aeroporto.

Participação da comunidade

A sustentabilidade terá papel central na manutenção do impulso provocado pela COP-30, segundo Ana Clévia Guerreiro, coordenadora de Economias do Futuro do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Não se pode afirmar que um território é desenvolvido se as pessoas foram excluídas do acesso aos ganhos econômicos gerados ou se os recursos ambientais foram esgotados. O desenvolvimento sustentável é aquele que realmente assegura a geração de renda, incluindo as pessoas, ao mesmo tempo em que assegura a preservação ambiental e patrimonial, seja material ou imaterial”, afirma.

Uma pesquisa divulgada pelo Sebrae e o Ministério do Turismo em 2024 apontou que o ecoturismo representava 60% do faturamento do setor. Na prática, significa que o esgotamento de recursos naturais impactaria negativamente a própria economia. O turismo de base comunitária, modalidade em que se visita moradores, também atrai muitos visitantes para conhecer as diferentes culturas e costumes da Amazônia.

A GKS e a organização Ocas, iniciativa de impacto socioambiental que presta assessoria a lideranças de bases comunitárias em cinco regiões da Amazônia Paraense, se juntaram para um projeto de economia criativa. Eles estão ajudando artesãs a refinarem sua produção de sabonetes e a empreenderem em novas linhas.

“Cada mentoria, cada aula, está sendo sensacional, um aprendizado para todas. Começamos a aprimorar, ter ideias de negócio, levar a outro patamar, sair do que a gente achava que seria algo só da nossa comunidade”, conta a artesã Bruna Lilian, dos quilombolas de Vila Cruzeirinho, no Baixo Acará.

A ideia é fortalecer o protagonismo local por meio da economia circular e valorizar os saberes amazônicos. É o trabalho de transformar resíduos e elementos da biodiversidade, como ervas medicinais e essências da floresta, em produtos ecológicos geradores de renda, ampliando o impacto social e econômico sobre essas populações.

“A COP conecta o nosso projeto, a sustentabilidade e toda a questão de você mostrar que, a partir da capacitação, a comunidade pode criar produtos ecologicamente corretos que vão gerar renda, proteção dos direitos humanos e justiça climática. Catalisa o que tem de valor dentro do nosso projeto, mostrando um produto com alto valor agregado e baixo custo ambiental”, afirma Renato Rosas, diretor de Propósito Corporativo da Ocas.

Saiba mais!

https://www.estadao.com.br/viagem/setor-de-turismo-trabalha-para-manter-o-para-em-alta-apos-a-cop-30-mas-espera-resultado-com-cautela/?srsltid=AfmBOoq_tjU7tIDLvkm7HtVbFjnTvmWNLInq_z_7E_6YzapadhX3cG8D: Setor de turismo trabalha para manter o Pará em alta após a COP-30. Mas espera resultado com cautela

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